segunda-feira, 16 de abril de 2012

PAPAGAIO!


Nos fins da década de 50 em Salvador, era “chic” entre os adolescentes (e muitos coroas também), o “footing” na Rua Chile todas as tardes. Os rapazes ficavam de pé, encostados nas portas das lojas, ou à beira das calçadas soltando piadas e gracejos às moças que passavam. Muitas delas já traziam de casa pacotes bem feitos, em caixas vazias, para fingirem que estavam a fazer compras.
Uma destas tardes, eu no meu ponto de costume na porta da loja Duas Américas, vejo um início de tumulto numa loja próxima, “A Moda”. Gritos femininos, corre-corre, pessoas se amontoando para tentar ver alguma coisa! Corro também para lá. Vinha o gerente da loja trazendo pelo colarinho um rapaz magro, rosto cheio de espinhas e cara assustada.
— Mas meu senhor! Eu tenho que encontrar a minha tia! Eu não conheço nada aqui, nem ninguém! Ela entrou nesta loja e, mandou que eu ficasse esperando aqui na porta. Já faz mais de uma hora.
— O senhor por favor retire-se daqui antes que eu chame a polícia! Saia imediatamente! 
Vaias! Todos estavam penalizados com a situação do pobre garoto.
— Aquele é o Papagaio! Ele estuda nos “Maristas”. – Falou-me um amigo que estava ao meu lado. – Aquilo é “grupo”.
“Papagaio” terminou por afastar-se da frente da loja e todos foram aos poucos dispersando. O meu amigo pegou-me pelo braço e levou-me para perto do dito cujo.
 — Ei, Papagaio! Qual é a sua bicho?
— Rapaz, vocês não imaginam o que vi de mulher de calcinha e sutiã agora lá dentro! Eu estava na moita ali na porta observando o movimento das cabines. Quando vi que todas tinham gente, entrei tirando uma de tabaréu e perguntando: Cadê minha tia? Cadê minha tia? E fui abrindo todas as portas. Foi um tal de mulher nua a gritar! Hi! Hi! Hi!  
Uma amiga havia me dado um enorme pacote de fichas para inscrição na Sociedade de Prevenção e Combate ao Câncer do Hospital Aristides Maltez e eu estava sem saber como começar a angariar associados. Olhei para o Papagaio e, pensei: “Este cara-de-pau” deve ser bom para isto! E entreguei-lhe um maço de fichas.
— Ei cara, vamos tentar conseguir um monte de associados para esta campanha!
— É pra já! Vou pegar logo uma aqui.– E imediatamente aborda uma senhora que ia passando.
— Minha senhora por favor ajude na Campanha contra a esterilidade infantil. A senhora sabia que cerca de 80% das crianças com menos de 7 anos não conseguem se reproduzir? A senhora se inscreve e, contribui mensalmente com quanto quiser! E ela se associou!!!  
Conseguimos, ou melhor, Papagaio conseguiu neste dia muitos associados para a Associação de Prevenção do Câncer! Depois enviamos as fichas pelo Correio. Não sei se ficaram realmente associados. Quando eu fui para o Banco do Brasil em Irecê, todas as vezes que voltava a Salvador tinha o local certo de encontrar “Papagaio” aos sábados a partir das 10:00h da manhã. Era no “Cacique” ao lado do cinema “Guarani” (que depois passou a chamar-se “Glauber Rocha”) tomando chopp. Quando nasceu o meu segundo filho, o André, e saí para fazer o registro, passei por lá para tomar algo bem gelado e Papagaio seguiu depois comigo para o Cartório de Registros, para testemunhar. 
José Borges Ribeiro! Foi quando vim a saber o seu nome completo realmente! Papagaio formou-se em Agronomia e vai trabalhar na Emater-BA em Irecê, onde eu estava morando! Fizemos boas farras por lá. Quando fui transferido, ele ainda permaneceu por lá algum tempo, retornando depois para a sua cidade natal. A única no mundo que não tinha “consoantes”, dizia com orgulho: Uauá!             Muitos anos depois, já morando em Aracaju, assistindo ao programa “Fantástico”, vejo uma reportagem sobre a seca no alto sertão baiano e é entrevistado um cidadão obeso, cara de lua-cheia, “sua” excelência José Borges Ribeiro, Prefeito de Uauá!!!

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